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  • Cintia de Almeida

A CULTURA É O ALVO E A META


No Brasil, após o golpe de 2016, a cultura foi um dos primeiros alvos do governo de Michel Temer e nunca mais saiu da mira dos conservadores e do atual governo Bolsonaro.

11 milhões de profissionais da área cultural foram os primeiros a parar de trabalhar na pandemia e os últimos a serem considerados numa política de auxílio de emergência

Quando veio a pandemia, boa parte da cultura brasileira já estava sem AR e vivia à custa de respiradores: o Ministério da Cultura extinto, as políticas públicas para o campo artístico-cultural inexistiam, os casos de censura eram cada vez mais comuns, assim como as fake news contra os profissionais da área. Ataques e mais ataques.

Em se tratando de governos que têm no obscurantismo, na intolerância, no ódio e combate à diversidade um de seus pilares, não nos causa nenhuma surpresa.

A cultura os incomoda, principalmente, porque a arte, têm um enorme potencial de construção de uma visão crítica da realidade e de formação de consciência, numa perspectiva humanizada. Faz com que um indivíduo, melhore sua autoconfiança e autoestima. Mesmo numa sociedade em que a indústria cultural e a visão mercadológica da cultura e da arte são predominantes, esse potencial exacerbado de desnaturalização da barbárie e de construção de novos valores e sociabilidades é considerado uma ameaça permanente e precisa ser eliminado ou reduzido ao mínimo.

O cenário já era desolador, a chegada da pandemia e as medidas para sua contenção, em especial a restrição à aglomeração de pessoas, acabaram expondo e acentuando várias dimensões do setor, em geral que não são percebidas pela maioria das pessoas.

Talvez a percepção mais forte, foi a de quão presentes e necessárias são para as nossas vidas as atividades artísticas de todos os tipos e, mesmo que atravessados pela lógica da mercadoria, elas são na sua maioria parte fundamental de nossas vidas. O que seria de todos nós, em meio ao isolamento social, não ter um bom livro para ler, um filme para assistir, aquela série ou a música. Com certeza enlouqueceríamos!

Por outro lado, o cancelamento e paralisação do setor, expos a situação de vulnerabilidade em que boa parte dos trabalhadores culturais vivem e evidenciando a sua condição de classe trabalhadora.




O que ficará de tudo isso?

Mais do que a retomada da economia da cultura pós pandemia, temos a finalidade de reconstruir um setor. Massacrado por quem deveria trazer soluções e fomentar políticas públicas decentes, para uma área do qual eleva os valores do país para o mundo.

A cultura hoje está criminalizada. Seres incultos, de tom debochado afirmam aos quatro ventos de que por extermínio, acabaram com a Mamata.

Que Mamata é essa? Há um enorme equívoco sobre a Lei Rouanet. Um dos principais mecanismos de fomento do país. Os projetos após passarem por análise rigorosa até sua aprovação, ainda, são submetidos às análises de patrocínios das empresas. Não é nada fácil, aliás, o que não temos é mamata. Tudo na cultura é feito às custas de muito trabalho.

Vivemos uma cultura polarizada. Como num ringue de luta livre. De um lado, os marginais, artistas, produtores, técnicos e fazedores da arte e da cultura. Do outro os campeões, os pregadores de Deus e da Família, que estão no comando da cultura deste país.

Enquanto lutamos pela sobrevivência, um lugar digno para o setor. Somos diariamente atacados pelos que dizem zelar pelo patrimônio artístico e cultural. Não há empatia, não há compaixão, não há comoção, não há uma ação de envolvimento junto as empresas que se beneficiam da Lei Rouanet nestes 30 anos, que acolha o setor. Um pouco de competência cairia muito bem, principalmente aos que se dizem perseguidos e nos atacam o tempo todo. Não enxergam a grandiosidade que é a cultura brasileira e por isso, usam da máquina pública para rebaixar toda a cadeia produtiva.

Nos faltam políticas públicas, mas sobram tempo para ataques ao setor por todos os meios das mídias sociais. Nós fazemos CULTURA, eles CULTURA DA PERSEGUIÇÃO E CULTURA CRISTÃ.

Arbitrariamente, os projetos levam meses em análise. Comissões foram destituídas e o que temos? A Polícia Militar com plenos poderes para analisar e aprovar os projetos CULTURAIS, AD Referendum! Só nos resta saber qual o estofo e o quão preparados estão com relação aos Artigos, as Instruções Normativas, os Decretos da Lei Rouanet. Mas, o principalmente para ocupar um lugar que é da sociedade civil nos vários segmentos culturais, para analisar e deferir ou indeferir projetos. Qual o nível de percepção artística se tem para tamanha prepotência?

O massacre evidente da Cinemateca, o desmonte de vários órgãos, a perseguição junto a ANCINE. Num sentido figurado, de trator, passaram por cima de anos de trabalho, de um patrimônio riquíssimo do audiovisual com enorme desrespeito.

A Fundação Palmares, sem propósito, sem programas, regida por intolerância e racismo.

A FUNARTE aos trancos e barrancos, um escândalo atrás do outro.

Fazem a CULTURA DO ATAQUE, da censura, do deboche, do desrespeito. Vivemos dias sombrios.

E nessa toada, estima-se que sejam mais de 11 milhões de profissionais da área, a grande maioria atuando nos “bastidores” do espetáculo, prejudicados pela CULTURA DO EXTERMÍNIO.

A pandemia, escancarou a sua base de sustentação, uma imensa massa de trabalhadores e trabalhadoras, muitos deles precarizados que se viram repentinamente sem as condições mínimas de sobrevivência.

Este momento, que muito se fala ser um período de reflexão para a humanidade e o que estamos fazendo com ela, deixou mais evidentes as contradições do sistema capitalista com sua anti cultura e seus anti valores. O emburrecimento de uma população, cega por uma mistura de comentários e ataques maldosos ao setor cultural

A pandemia trouxe criatividade para superar o medo e o isolamento, mostrou a arte e a cultura como esse lugar necessário de respiro e de encontro, mesmo que virtual, e que precisam ser valorizadas e colocadas como dimensões estratégicas nessa reconstrução e merecimento.

Temos pressa de reconstruir o setor. Não se trata mais de uma escolha, mas sim de uma necessidade, sob o risco de deixarmos de existir.

Precisamos nos reinventar nos entendermos como seres interligados, habitantes de um planeta, responsáveis pelo rumo que tomaremos enquanto humanidade e temos como aliado a cultura e a arte como respiro.

A arte e a cultura têm uma dimensão de produção de conhecimento intelectual e desenvolvimento da subjetividade formando nossos sentidos e nossa consciência. Numa perspectiva emancipadora, permite a percepção da realidade de forma sensível e, portanto, que tenhamos um olhar profundo sobre a mesma, percebendo-a não apenas para representá-la, mas para refletir sobre ela e intervir de forma criativa para transformá-la.

"Pressupondo o ser humano enquanto ser humano e seu comportamento com o mundo enquanto um “comportamento” humano, tu só podes trocar amor por amor, confiança por confiança, etc. Se tu quiseres fruir da arte, tens de ser uma pessoa artisticamente cultivada; se queres exercer influência sobre outros seres humanos, tu tens de ser um ser humano que atue efetivamente sobre os outros de modo estimulante e encorajador”, afirmou Karl Marx em seus Manuscritos Econômico-filosóficos de 1844.”

A CULTURA RESISTE

Cintia de Almeida

Produtora Cultural há 30 anos, especialista em Leis de Incentivo à Cultura. Hoje à frente BASE3 Produtora e Conselheira Fiscal do Movimento Sou 1 de 11 Milhões de Trabalhadores da Cultura.

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