MARIO FRIAS PASSOU

– "Deixou como legado tudo que queremos esquecer desses tempos obscurantistas."

Mario Frias passou.

Mas deixou um rastro calcinado por onde andou. E não deixou o cargo por consciência de abusos e dirigismo. Também não foi pela falta de conhecimento do próprio setor que, por exemplo, reverencia a arquiteta Lina Bo Bardi, que ele desconhece.

Tampouco o fez pela falta de habilidade em lidar com as questões de sua gestão, pela incompetência de sua equipe em dar continuidade aos processos que o MINC sempre atuou, nem pelos gastos em uma viagem incompreensível para Nova York ao mesmo tempo que humilhava, através de alterações na Rouanet, toda a classe artística reduzindo valores de cachês a níveis insustentáveis, alegando hipocritamente uma democratização e redistribuição de renda.

Mentiu em inúmeras ocasiões, sem qualquer prurido e corroborou com o desmonte de todo o sistema cultural que já era desfalcado. Fez questão de tirar até as migalhas... com ódio declarado ao fazer artístico libertário e emancipado.

Reteve os processos da Rouanet, que limitou instituições a executar obras de proteção às artes, projetos com forte impacto de empregabilidade. Negou direitos e oportunidades no meio do caos.

Criminalizou e desonrou o setor. Não teve sensibilidade para ampliar sua própria escuta e seu entendimento sobre o que realmente se trata esse setor poderoso, com 11 milhões de trabalhadores e profissionais envolvidos direta e indiretamente e nem se incomodou com suas famílias beirando o desespero.

Lutou contra recursos das Leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo, que imprimem um processo de recuperação econômica e social não só dos profissionais da Cultura, mas do país, por ser um setor com grande capilaridade, distribuição territorial e estímulo para atividades conexas como hoteleiras, gastronômicas,

setores comerciais, gráficas, fornecedores de todas as áreas, do pipoqueiro à grua de gravação.

Não, não foi exonerado para ser lançado nas trevas de onde jamais deveria ter saído e nem por ter "reinado" à partir de suas frustrações pessoais. Caiu em pé para poder tentar uma eleição de deputado federal, suportada pela base das instituições que estão sendo privilegiadas declaradamente em todos os ministérios, como o da Educação.

Saiu e entrou outro em seu lugar: Hélio Ferraz. O que sabemos sobre ele? Secretário Nacional do Audiovisual, responsável pelo fechamento da Cinemateca de São Paulo, fez parte da comitiva sem noção que viajou a Nova York. Anda e tira fotos com armas como metralhadoras e não circula no meio cultural, a não ser nos seus bastidores jurídicos. Ser pai solo de três filhos adotivos quase me comoveu.

Mas, repito um sábio twitter de alguém que li ontem, com adaptações: caíram os piores Secretário Especial de Cultura e Ministro da Educação que substituíram os piores Secretários da Cultura e Ministros da Educação que certamente serão substituídos pelo padrão desse governo. Pelo menos levaram com eles Sérgio Camargo e o delével delegado Porciúncula.

Bem, por fim, Mário Frias passou. Deixou como legado tudo que queremos esquecer desses tempos obscurantistas. Aliás, de quem mesmo estamos falando? Já esqueci.

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Texto: Annelise Godoy


Produtora Executiva. Foi Gerente de Comunicação no Instituto Alfa de Cultura, para o ABN Amro e CervBrasil. Diretora executiva na Associação dos Amigos do MIS SP e Philarmonia Brasileira Produções. Em 2019 foi Coordenadora do Curso de Produção Cultural na UNEMAT (MT). Hoje atua como Presidente da Associação Movimento Nacional Sou 1 de 11 Milhões de Trabalhadores da Cultura desde outubro de 2020.




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